quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Aparecem sobre a superfície na escuridão da noite, no silêncio enquanto as pessoas respiram profundamente. Mexem-se velozmente, freneticamente sobre os tubos metálicos e vibrantes que constituem a grande rede de ensaio do subsolo. Uma vida vibrante, curiosa e repelente existe por trás das belas fachadas coloridas dos prédios. Elas suportam-nos quando pisamos o chão, elas resistem quando as estonteamos de veneno, quando destilamos a nossa agrura num gesto rápido e esmagador. São baratas as convicções mas caras as aplicações, é barata a vontade de destilar e terminar com o que nos é incómodo. Elas subsistem, persistem e insistem em existir para nos dizer que por debaixo da opulência existe a natureza frágil que insiste em romper pelos bonitos soalhos bordados a linho e faia.
quinta-feira, 29 de Outubro de 2009
Parafernália comercial
Entramos num lugar VIP e estamos mais perto da realidade do que imaginamos. Se por acaso esse lugar se encontrar fora de serviço pedimos desculpa pelo incómodo, pois apenas temos um certificado de conformidade que se refere às normas de segurança contra riscos de incêndios em estabelecimentos comerciais. Contudo, temos uma frota de caminhos para emprestar, qualquer que seja o destino, consulte-nos.
O senhor está pronto para o melhor tempo da sua vida? Entre no cinema, nas salas 1,2 e 3, faça fila única, deposite os seus cheques e notas e ganhe um saco de esperança.
O bom deste lugar é que enquanto você entra na loja amarela, prova uns chocolates, cai nas mais diversas tentações como comprar a nova fragrância masculina, um americano entre seis funcionários é assassinado em Cabul. Tenha em mente que nós fazemos com paixão o que você faz por amor. Por isso, sente-se no seu sofá, beba o seu leite reforçado com cálcio que ajuda a prevenir a osteoporose enquanto assiste pela janela a uma chuva de folhas em pleno Outono sobre esta terra pura. Ah, como é bom estar aqui!
O senhor está pronto para o melhor tempo da sua vida? Entre no cinema, nas salas 1,2 e 3, faça fila única, deposite os seus cheques e notas e ganhe um saco de esperança.
O bom deste lugar é que enquanto você entra na loja amarela, prova uns chocolates, cai nas mais diversas tentações como comprar a nova fragrância masculina, um americano entre seis funcionários é assassinado em Cabul. Tenha em mente que nós fazemos com paixão o que você faz por amor. Por isso, sente-se no seu sofá, beba o seu leite reforçado com cálcio que ajuda a prevenir a osteoporose enquanto assiste pela janela a uma chuva de folhas em pleno Outono sobre esta terra pura. Ah, como é bom estar aqui!
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domingo, 25 de Outubro de 2009
Quase-revolução
Uma manhã, como qualquer outra enevoada manhã naquela cidade, deu-se o súbito fenómeno de todas as fontes, repuxos, aspersores e demais orifícios de onde provinha água, suspenderem a sua obra, o mesmo que dizer que aparentemente secaram. Sendo verão, mais que em qualquer outra época do ano, é junto a um destes oásis o sítio que, a esta altura da aurora citadina, os mendigos desta cidade escolhem para frequentar, refrescar, lavar aquelas partes do corpo que conseguem lavar publicamente, e saciar a sede e a fome em simultâneo, na falta de algo mais sólido para entreter os interiores.
Dada a recente secura, todas estas almas habituadas à falta de fortuna despertaram perplexas, não estavam habituadas à ideia de que podiam vir a sentir que estavam privadas de alguma coisa que tinham garantida, simplesmente porque não achavam que tinham nada garantidamente.
Este episódio nunca dantes visto numa cidade destas dimensões deu origem a uma espécie de diáspora, um sair dos seus nichos habituais por parte dos vagabundos urbanos, que começaram nos dias seguintes a ser vistos vaguear na cidade em sítios inesperados, e a horas inabituais. Tal causou este desgoverno dos seus hábitos.
Ao passarem uns pelos outros, foram associando-se em pequenos grupos de gente assustada por sentir uma ameaça nova, e na verdade assustados por sentirem qualquer coisa que seja em tanto tempo. Os grupos cresceram em tamanho, até formarem alguns poucos grupos de centenas de pessoas. Evento estranho de se observar no centro da metrópole. As pessoas sem sorte na vida formando um monte andrajoso e homogéneo de cobertores sujos e casacos rotos, uma mancha que tomou conta da paisagem turística da cidade.
Gerou-se um silêncio aterrador, em parte pela plateia atónita e afectada pelo que via, e em grande parte porque a maioria destas pessoas, por não ter força, vontade, ou por já se ter esquecido de como o fazer, não conseguia falar. Apenas um ou outro mantinha este atributo muito humano da fala, e um acima de todos estava consciente do grande revés que a turba de mendigos sofria com esta secagem das fontes. Quando chegou a polícia, ele foi o único que respondeu.
- Não podem aqui estar - começou o chefe da operação de intervenção, e ordenou - Desanda!
- Qual é o problema de estar aqui - arriscou-se a perguntar do meio da multidão a voz do mais audacioso mendigo. A resposta tardou, por não ter sido prevista aquela reacção
- Não podem, é probido um ajuntamento destes.
- Mas nós simplesmente manifestamos aquilo que é injusto, e na falta de revolta, demonstramos veementemente aquilo que temos de sobra, a apatia.
- Injusto é estarem a perturbar as pessoas. Embora daqui - insistia deste modo o recém promovido tenente, que não queria deixar de demonstrar, pela agressividade, a sua diligência no zelo pela ordem pública. Vendo-se encurralado e vencido neste debate sobre legislação da desordem, o mendigo resolveu abrir o coração.
- O caso é que temos sede.
- E nós com isso?
- Os senhores são a autoridade máxima que rege as pessoas que por aqui andarem, alguma coisa poderão fazer acerca da falta de água.
- Não sabemos porque faltou a água. Além do mais, não é pela vossa classe que os meus homens mantêm o emprego e os salários, pelo contrário, portanto é mesmo aguardar a próxima chuva. Entretanto, é desandar, ou seja, é ir cada qual para o seu poiso de sempre e favor não perturbar o trânsito dos peões e turistas.
Com isto, o melhor alimentado, melhor vestido, e melhor armado chefe de polícia desencorajou o seu rival de prosseguir com a sua reclamação que, convenhamos, era tão legítima quanto desesperada. Acontece que durante esta troca de poucas ideias, um acaso meteorológico extremamente improvável neste pino de verão foi tendo lugar. Sobre a grande praça onde ficaram cercados pelos agentes os cada vez mais desfalecidos e descaídos casacos rotos, foi-se formando um negro aglomerado de carregadas nuvens, que encheu de esperança o mais desatento dos mendigos. Sem se esperar e antes que os dos bastões avançassem a castigar o conjunto de vagabundos, uma tempestade aquífera caiu do céu, primeiro uma chuva forte e constante, que sabia bem à pele suja e quente dos maltrapilhos, e depois uma carga de água incomensurável, tão frequente que se deixou de ver um palmo à frente da vista.
Aquilo que surpreendeu e atemorizou os espectadores deste inédito episódio urbano foi o facto de esta chuva atingir apenas a zona ocupada pelos mendigos. Num círculo bem definido e limitado a essa área, jorrava a água, contrastando com a secura das zonas circundantes, em boa verdade todo o resto da cidade. Aquele mendigo que era mais atreito a raciocínios, o que desafiou a autoridade, pensou para consigo que aquilo só poderia ser intervenção divina. E talvez fosse mesmo uma resolução dos deuses para colmatar esta falta de engenho dos homens. O certo é que, como por artes mágicas, a face dos mendigos fustigados pelo sol ia clareando, as roupas iam tomando as suas cores, próximas das originais, os corpos iam ficando limpos, e as suas almas, parecia-lhes, pesavam menos.
Isto fez o chefe de polícia ficar alerta. O sucesso da sua operação estava comprometido, pois estes mendigos, limpos pela chuva divina, e quase já secos pelo sol que, enquanto entrávamos na encruzilhada mente do agente oficial, já se pôs em toda a praça, podiam agora muito bem confundir-se com o mais comum dos transeuntes. Alterou de imediato a estratégia, não fosse o próprio pós-graduado em situações de assalto, guerrilha e micro-estratégia urbana. Decidiu acalmar os mendigos, falou a todos prometendo, em troca de alguma ordem e respeito, uma distribuição diária de uma refeição e uma garrafa de água. Embalado no próprio discurso, pensando para si que iria facilmente chegar a político, prometeu renovação nas roupagens, e protecção contra o frio desta gente menos abrigada, bem como investimento na reabertura das fontes.
Desta forma, organizou os seus agentes para redistribuírem os mendigos pelos seus lugares de frequentação habitual, e, regressada a normalidade, com a ração diária que se limitou a um pão quando calhava e uma garrafa de água, e com as fontes jorrando a sua usual e usada água, os mendigos tornaram a adormecer pela cidade.
Debaixo da minha janela (inspirado em)
Não sei definir uma janela. Não é certamente uma passagem, mas também é insuficiente dizer dela que é um conjunto de vidros e outros materiais estruturantes.
Parece-me que inventaram a janela à pressa para camuflar o facto de precisarmos de paredes.
terça-feira, 20 de Outubro de 2009
“Por baixo da minha janela.” (1)
Um parapeito que sugere uma infinidade de possibilidades, uma janela em aberto. Afinal, tudo pode acontecer por baixo da minha janela. Talvez apenas eu nunca tenha estado atenta ao que se passa por baixo da minha janela. Na realidade por baixo da minha janela é o meu pátio, existem janelas que não dão para o exterior. No entanto existem janelas que dão para o interior, se juntarmos ambas as possibilidades são ilimitadas. Por vezes gosto de estar debruçada na minha janela e ver as gentes que passam e ouvir o que dizem, se não consigo, imagino! Outras vezes recolho-me e fico do lado de dentro da janela, não quero que me vejam, mas eu posso ver todos. Nem sempre posso estar à janela, tenho outras coisas para fazer, mas ponho-me a imaginar como seria se conseguisse estar 24h à janela, a olhar para baixo. Sentir-me-ia uma entidade maior, que poderia ver tudo, ou uma doente que sofria de um voyeurismo exacerbado, ou até sentir-me-ia cansada e infeliz porque não tinha mais nenhum objectivo a não ser o de estar à janela para ver o que se passava por baixo dela.
Mas agora imaginar estar à minha janela e realmente não estar é muito mais interessante, posso eu criar as personagens, as situações, dar os finais e ainda pintar as cenas com cocó de pombos como pontos finais.
Gosto de ouvir num dia de inverno a chuva a bater na minha janela, o pior é que me impede de ver o que se passa por baixo dela. Não gosto de ter os vidros das janelas sujos, mesmo que estas não dêem para a rua, as janelas interiores também se sujam se não forem limpas com alguma frequência. A mim ensinaram-me que a melhor maneira de manter os vidros das janelas sempre limpos e sem pêlos é limpá-los com papel de jornal e limpa vidros. Um dia o meu senhorio disse que se haveria de tirar as janelas de madeira e trocar por outras de alumínio, eu não permito, acho que as janelas de madeira dão um ar muito mais bonito.(2)
(1) A frase do título foi escrita por Jorge Silva Melo
(2) O comentário é meu :)
Mas agora imaginar estar à minha janela e realmente não estar é muito mais interessante, posso eu criar as personagens, as situações, dar os finais e ainda pintar as cenas com cocó de pombos como pontos finais.
Gosto de ouvir num dia de inverno a chuva a bater na minha janela, o pior é que me impede de ver o que se passa por baixo dela. Não gosto de ter os vidros das janelas sujos, mesmo que estas não dêem para a rua, as janelas interiores também se sujam se não forem limpas com alguma frequência. A mim ensinaram-me que a melhor maneira de manter os vidros das janelas sempre limpos e sem pêlos é limpá-los com papel de jornal e limpa vidros. Um dia o meu senhorio disse que se haveria de tirar as janelas de madeira e trocar por outras de alumínio, eu não permito, acho que as janelas de madeira dão um ar muito mais bonito.(2)
(1) A frase do título foi escrita por Jorge Silva Melo
(2) O comentário é meu :)
segunda-feira, 19 de Outubro de 2009
Um texto para cada divisão
Sala 1
Existem portas que escondem as divisões de cada um. Abrem-se e vê-se tudo repartido, vazio e cheio de pó.
Sala 2
Ao lado da janela que dá para o pátio existem cabides que seguram malas. Essas malas pertencem a alguém que passou por esse corredor escuro e frio, onde os 10 botões que lá existem não se sabe o que fazem.
Sala 3
Sem janela e sem extractor de cheiros deve-se manter o local limpo. Existem detergentes, balde, esfregona, luvas, panos, caixote do lixo, sabonete para as mãos, mas não existe papel higiénico.
Sala 4
Pela porta azul em ferro trabalhado impera um painel de azulejos num espaço espectral. O esqueleto do espaço está bem desenhado, basta saber interpretá-lo; as saídas de emergência estão bem sinalizadas, contudo existe humidade nas paredes e a tinta descasca ante nós.
Sala 5
Esteve ali alguém agora mesmo, o avental ainda mexe. Será que os ténis foram colocados ali de propósito? É que alguém pode roubar. Ainda bem que existem grades nas portas trancadas se não por este chão de calçada portuguesa muitos delitos se davam.
Existem portas que escondem as divisões de cada um. Abrem-se e vê-se tudo repartido, vazio e cheio de pó.
Sala 2
Ao lado da janela que dá para o pátio existem cabides que seguram malas. Essas malas pertencem a alguém que passou por esse corredor escuro e frio, onde os 10 botões que lá existem não se sabe o que fazem.
Sala 3
Sem janela e sem extractor de cheiros deve-se manter o local limpo. Existem detergentes, balde, esfregona, luvas, panos, caixote do lixo, sabonete para as mãos, mas não existe papel higiénico.
Sala 4
Pela porta azul em ferro trabalhado impera um painel de azulejos num espaço espectral. O esqueleto do espaço está bem desenhado, basta saber interpretá-lo; as saídas de emergência estão bem sinalizadas, contudo existe humidade nas paredes e a tinta descasca ante nós.
Sala 5
Esteve ali alguém agora mesmo, o avental ainda mexe. Será que os ténis foram colocados ali de propósito? É que alguém pode roubar. Ainda bem que existem grades nas portas trancadas se não por este chão de calçada portuguesa muitos delitos se davam.
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quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Naquilo que resta
Farrapo. É como um farrapo humano que me vêm. Sou, na verdade, mais farrapo que humano, e por isso dependo tanto assim da humanidade. Procuro a humanidade até à demência, procuro onde a cheiro, vasculho onde oiço os seus ecos, analiso no lixo cada pedaço de humano.
E no lixo - onde me vêem vaguear, onde gasto tanto da minha tão parca atenção – é lá que encontro o que há de bom e mau nos homens. Deparo-me com os seus restos, é nos seus restos que concentro as minhas forças. E sem eles, sem o que as pessoas desprezam, não estaria aqui, com o meu juízo inteiro. Eles preenchem-me com sensações dos homens, fazem-me sentir perto, e daí eu me achar dependente do desperdício das gentes. Necessito que as pessoas desperdicem, se desapeguem daquilo que amaram, ou daquilo que necessitaram. É preciso que gastem, se enfadem do que têm, desperdicem o que não conseguem consumir, tenham menos e mais fraca barriga do que olhos gananciosos. Preciso do seu luxo antigo e despedaçado. Preciso que sejam egoístas, que usem só o que têm de melhor para me restar algo daquilo que é paupérrimo.
Sejam egoístas, e sejam insanamente autocentrados, preocupem-se tanto como só vocês conseguem com a vossa imagem pública, ao ponto de me darem uma esmola que pareça bem aos olhos dos que passam a ver. (por favor) Desunam-se e digladiam-se, e atirem-me as sobras. Sintam o fervor da inveja, e sintam também o frio que resta no fim dela. É também importante que sintam frio, muito frio. Tanto, que invistam todo o aquecimento nas vossas máquinas, nas vossas construções recordistas e ambiciosas, e assim eu sentir-me-ei protegido, terei o meu lugar próximo desta humanidade fumegante das cidades, serei parte integrante do seu conforto, muito embora esteja na ponta final do mesmo: uma cinza, uma marca do aconchego que existiu nalgum lugar que não este.
E ainda assim, onde eu moro é onde existe mais humanidade. Nas ruas deste mundo, sente-se uma névoa gélida pela manhã. Ela vem carregada com tudo o que fervilhou nas mentes dos homens, que agora dormem exaustos, distantes. Nela, eu sou invisível.
E no lixo - onde me vêem vaguear, onde gasto tanto da minha tão parca atenção – é lá que encontro o que há de bom e mau nos homens. Deparo-me com os seus restos, é nos seus restos que concentro as minhas forças. E sem eles, sem o que as pessoas desprezam, não estaria aqui, com o meu juízo inteiro. Eles preenchem-me com sensações dos homens, fazem-me sentir perto, e daí eu me achar dependente do desperdício das gentes. Necessito que as pessoas desperdicem, se desapeguem daquilo que amaram, ou daquilo que necessitaram. É preciso que gastem, se enfadem do que têm, desperdicem o que não conseguem consumir, tenham menos e mais fraca barriga do que olhos gananciosos. Preciso do seu luxo antigo e despedaçado. Preciso que sejam egoístas, que usem só o que têm de melhor para me restar algo daquilo que é paupérrimo.
Sejam egoístas, e sejam insanamente autocentrados, preocupem-se tanto como só vocês conseguem com a vossa imagem pública, ao ponto de me darem uma esmola que pareça bem aos olhos dos que passam a ver. (por favor) Desunam-se e digladiam-se, e atirem-me as sobras. Sintam o fervor da inveja, e sintam também o frio que resta no fim dela. É também importante que sintam frio, muito frio. Tanto, que invistam todo o aquecimento nas vossas máquinas, nas vossas construções recordistas e ambiciosas, e assim eu sentir-me-ei protegido, terei o meu lugar próximo desta humanidade fumegante das cidades, serei parte integrante do seu conforto, muito embora esteja na ponta final do mesmo: uma cinza, uma marca do aconchego que existiu nalgum lugar que não este.
E ainda assim, onde eu moro é onde existe mais humanidade. Nas ruas deste mundo, sente-se uma névoa gélida pela manhã. Ela vem carregada com tudo o que fervilhou nas mentes dos homens, que agora dormem exaustos, distantes. Nela, eu sou invisível.
terça-feira, 29 de Setembro de 2009
Síntese
Em contacto com a matéria ardente
recolhe o frio ao nó dos dedos.
Quão breve tempo é a mais longa vida.
Tudo se decompõe.
Tu és a esperança, a madrugada.
Como posso eu amar-te, se nem sei.
Tem haver com a asfixia, o dilúvio
Entre negras amnésias do céu.
Da noite, para além de ti, de mim, do corpo que formamos, síntese de toda a poesia feita.
recolhe o frio ao nó dos dedos.
Quão breve tempo é a mais longa vida.
Tudo se decompõe.
Tu és a esperança, a madrugada.
Como posso eu amar-te, se nem sei.
Tem haver com a asfixia, o dilúvio
Entre negras amnésias do céu.
Da noite, para além de ti, de mim, do corpo que formamos, síntese de toda a poesia feita.
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segunda-feira, 20 de Julho de 2009
Do quase Ser
Um homem encontrou uma vez um jardim abandonado
Que por não ter flores, nem árvores sequer
Mal conseguia jardim ser.
Pouco mais que um banco e um silvado lá havia
Mas o homem gostava de lá ficar sentado
E parecia-lhe aquele jardim poesia.
Lá plantou uma árvore de folha perene e ramos compridos
E sonhou que pássaros lá gostassem de poisar.
Quando a árvore deu flores, e pássaros, pensou ser para lhe agradar
Mas quem via a árvore, o banco, o homem e o silvado
Não imaginava que estavam irremediavelmente unidos
E que eram um jardim, ainda que imaginado.
Um dia, o homem, envelhecido, emudeceu
Viu o seu jardim quase centenário
Desaparecer subitamente, pela pá de um operário
Viu lá surgir uma estrada grande, trânsito desordenado
E então, velho e mudo, também desapareceu.
Nem sobrou a árvore, por se encontrar no traçado.
Ninguém, quando o velho do jardim era jovem
Percebia ali poesia alguma
Mas a poesia estava era no homem.
Que por não ter flores, nem árvores sequer
Mal conseguia jardim ser.
Pouco mais que um banco e um silvado lá havia
Mas o homem gostava de lá ficar sentado
E parecia-lhe aquele jardim poesia.
Lá plantou uma árvore de folha perene e ramos compridos
E sonhou que pássaros lá gostassem de poisar.
Quando a árvore deu flores, e pássaros, pensou ser para lhe agradar
Mas quem via a árvore, o banco, o homem e o silvado
Não imaginava que estavam irremediavelmente unidos
E que eram um jardim, ainda que imaginado.
Um dia, o homem, envelhecido, emudeceu
Viu o seu jardim quase centenário
Desaparecer subitamente, pela pá de um operário
Viu lá surgir uma estrada grande, trânsito desordenado
E então, velho e mudo, também desapareceu.
Nem sobrou a árvore, por se encontrar no traçado.
Ninguém, quando o velho do jardim era jovem
Percebia ali poesia alguma
Mas a poesia estava era no homem.
quinta-feira, 16 de Julho de 2009

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segunda-feira, 6 de Julho de 2009
Retiro(-me)
Como a vibração de uma taça o meu coração vem feliz do regresso e em paz pelo caminho que percorri. Sou a expressão de um retiro em mim.
Eu escolho o amor, a plenitude, a natureza, o ser, as coisas…
Etiquetas: O retiro
terça-feira, 30 de Junho de 2009
Leveza
Uma imensidão azul tocada a vento. Um pedaço de terra que invade o mar. O mar corrói as raízes da terra. Um corpo solto no meio da natureza ao sabor do vento, de olhos fitos na imensidão do mar e o coração elevado à grandeza do céu. Esta espiral é ténue, o percurso é um carrossel. A agilidade da mente tem de ser subtil e bela, fechamos os olhos e já lá não está, existe mas de outra maneira. Os elementos carregam-nos como uma base sólida mas flexível às oscilações, um bom colchão de molas. Uma inalação profunda de verde e lembranças e uma exalação do que não se quer. A imagem esmagadora da nossa pequena existência na imensidão terrestre, da imensidão terrestre no grandioso universo e de ambos numa poeira dançarina pelo cosmos brincando. Caminhar levemente sobre trilhos que não deixam rastro, flutuar a mente num sorriso interno esboçado e erguer o corpo num impulso de densidade relativa para a imersão aparente do querer. Querer muito, com muita força, com toda a entrega, como um desmaio de abandono das forças sobre o colorido vivificante do corpo revivido.
Um amor destemido tão grande, um foco bem no centro que faz vibrar tudo em nosso redor com um magnetismo belo e transcendente. A vida de nós, quem somos nós?
Um amor destemido tão grande, um foco bem no centro que faz vibrar tudo em nosso redor com um magnetismo belo e transcendente. A vida de nós, quem somos nós?
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sábado, 14 de Fevereiro de 2009
Marcas vincadas
Com as mãos a tremer, num pulsar de adição grito para o mundo que quero o furacão do jogo sórdido e doido do toque. O gesto ofegante, a palavra que cai com os cabelos para trás sobre as nuas costas. É um pulsar que arrepia, que alerta e vicia. De olhos fechados os pés dançam sobre a pista. A música está na nossa cabeça, alienada do mundo, tudo são mãos, pés e sorrisos fortuitos. É o nervosismo da ausência, o medo da queda livre sobre o corpo. São frases rápidas as testemunhas das mãos serradas sobre a vontade de querer mergulhar nesta louca profundidade. A linha é tão sumida, tão lesto o pensamento, só o corpo é voraz.
Dançam ambos como mergulhados em notas musicais palpitantes. Já não há saliva, já não há querer, só o encanto da mente. Ela faz o desenho com as marcas vincadas do carvão, como consegue ser bela a fúria do tracejado e pouco serena a violência da mancha de tinta seca. Ficamos mais um tempo a viver esse parágrafo perfeito, pensamos que ninguém conseguiria transpor tão belas palavras até que abrimos os olhos e cessa a imagem.
Dançam ambos como mergulhados em notas musicais palpitantes. Já não há saliva, já não há querer, só o encanto da mente. Ela faz o desenho com as marcas vincadas do carvão, como consegue ser bela a fúria do tracejado e pouco serena a violência da mancha de tinta seca. Ficamos mais um tempo a viver esse parágrafo perfeito, pensamos que ninguém conseguiria transpor tão belas palavras até que abrimos os olhos e cessa a imagem.
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sábado, 3 de Janeiro de 2009
Sentada à beira de mim
Sentada à beira dos meus pensamentos, reflectida na imagem nítida das minhas emoções julgo-me um ser de cabelo farto, embaraçado e crespo; pele rosada e fina, mãos suaves e o coração cheio de calos do trabalho pouco gentil desta nova era. Os pequenos peixes saltam alegres. Julgo serem os nervos frenéticos a pulsarem na imagem aquosa do meu crânio reflectido nas ondas d’água.
Numa inalação profunda de saudosismo todas as sensações frágeis e alegres encorpam o sangue já espesso. Tal sensação é igual às poucas moedas que temos nos bolsos e a única nota que temos no banco, podemos gastar as moedas mas não podemos tocar na nota, mas se gastarmos as moedas a nota deixa de ser dinheiro e passa a ser medo ou alienação. É este estado forte do tudo ou nada, esta embriaguez dos sentidos em que tudo parece lento e tocante.
Nas ruas húmidas e vividas, são vadias as pedras do chão, pisadas por todos, cuspidas e gravadas por gentes fugazes e almas lentas. Entre a memória do passado e nítida visão do futuro está o murro sobre o estômago e a constrição da mente que à força de se abrir fraqueja. Fechar os olhos e ouvir o barulho das coisas inertes pensando, como será estar ali? Olhando-me ao longe penso, como será estar aí? Num encanto súbito corro em direcção à longe imagem que vejo. Ao correr a imagem corre sempre para a exacta proporção entre mim e ela. Como o fim que não quer terminar, o sol que não quer cair e ela sentada à beira de mim.
Numa inalação profunda de saudosismo todas as sensações frágeis e alegres encorpam o sangue já espesso. Tal sensação é igual às poucas moedas que temos nos bolsos e a única nota que temos no banco, podemos gastar as moedas mas não podemos tocar na nota, mas se gastarmos as moedas a nota deixa de ser dinheiro e passa a ser medo ou alienação. É este estado forte do tudo ou nada, esta embriaguez dos sentidos em que tudo parece lento e tocante.
Nas ruas húmidas e vividas, são vadias as pedras do chão, pisadas por todos, cuspidas e gravadas por gentes fugazes e almas lentas. Entre a memória do passado e nítida visão do futuro está o murro sobre o estômago e a constrição da mente que à força de se abrir fraqueja. Fechar os olhos e ouvir o barulho das coisas inertes pensando, como será estar ali? Olhando-me ao longe penso, como será estar aí? Num encanto súbito corro em direcção à longe imagem que vejo. Ao correr a imagem corre sempre para a exacta proporção entre mim e ela. Como o fim que não quer terminar, o sol que não quer cair e ela sentada à beira de mim.
sexta-feira, 19 de Outubro de 2007
Vida rasteira (parte II)
Sempre que despertava, Josué Boné via a vida rasante ao chão. Estava habituado a apreciar as beatas, os papéis-guardanapos desperdiçados, as latas, o rebuliço das pernas das pessoas sempre se apressando, obliquamente notava todo este mundo rasteiro, acordava virado para o chão.
Porém, das vezes seguintes em que se preparava para encarar e deuxar passar novo dia, além de uma imensidão de calçada suja e povoada de pés de pessoas, reparou que estava sempre acompanhado pela criatura dócil, calma, o cachorro que de dia para dia crescia nem ele sabia como, se nem para ele próprio arranjava o suficiente que comer, como estaria aquele cão, de pelo negro, fosco, cão de rua, com um aspecto tão saudável? O certo é que velozmente o cão ia atingindo um bom tamanho, e o seu poiso predilecto, onde estava constantemente deitado, era ao lado do boné do Boné. Tanto assim era que Boné já quase não ia ao boné retirar a grande parte que houvesse da sua conta - que não era bancária porque não estava num banco, mas sim no chão - para evitar os furtos, frutos das suas constantes escapadas da realidade deste mundo. Cada um destes, agora dois, mendigos permanecia no seu posto, e tinham-se respeito tal que o bicho não encarava Boné nos olhos quando se sabia observado, passando-se o mesmo na ordem inversa de ideias. E neste mutualismo surgido aparentemente por acaso, tudo se passava pacificamente, tão passivamente quanto antes, com apenas uma diferença de que Josué se aoercebeu a certa altura olhando o seu boné.
A sua conta em moedas crescia, amontoava, quase criava juros, ao ponto de até moedas mais cintilantes e valiosas se notarem no meio de um monte de outras mais modestas. O coração do sem-abrigo palpitou, pulsou forte algumas vezes. Já se ia esquecendo de comer há muitas horas, mas lembrava-se que padecia de séria fome. E ali lhe surgiu uma mina, um almoço como há muito não havia. Acorreu ao dinheiro, e de imediato o cão se ergueu num pulo, ficando no entanto espectante, olhando ora aqui ora ali, como que atento e de guarda. As pessoas que passavam pensavam que aquela pobre alma tinha finalmente arranjado, pelo menos, uma companhia, um cão. Boné ia pensando: "Este cão fez-se meu dono e mestre."
E assim parecia ser: o cão nada lhe pedia mas depressa o começou a ensinar. Refilava se alguém se aproximava de modo suspeito do boné, rosnando ameaçadoramente. Aparecia simpátivo ao resto das pessoas. Começou a ladrar, para grande espanto inicial de Boné, quando notava que já habia suficiente no boné para que se fosse comprar comido. Por vezes, desaparecia para aparecer daí a momentos com uma moeda que, com o ar mais natural deste mundo, depositava no boné, lambia o focinho duas ou três vezes e tornava a deitar-se. Mais que tudo, este cão que sabia contar e farejar dinheiro, deu umas novas pernas ao seu dono adoptado, ensinou o humano a erguer-se nelas, e este já passava mais tempo acordado e vertical, e já se afastava vários metros do boné por largos minutos, até dando-se ao luxo de comprar o pão em sítios diferentes de cada vez. O cão permanecia nessas alturas junto ao boné, mendigando aos humanos. E, de tudo o que caía no boné, recebia metade, em alimento.
Porém, das vezes seguintes em que se preparava para encarar e deuxar passar novo dia, além de uma imensidão de calçada suja e povoada de pés de pessoas, reparou que estava sempre acompanhado pela criatura dócil, calma, o cachorro que de dia para dia crescia nem ele sabia como, se nem para ele próprio arranjava o suficiente que comer, como estaria aquele cão, de pelo negro, fosco, cão de rua, com um aspecto tão saudável? O certo é que velozmente o cão ia atingindo um bom tamanho, e o seu poiso predilecto, onde estava constantemente deitado, era ao lado do boné do Boné. Tanto assim era que Boné já quase não ia ao boné retirar a grande parte que houvesse da sua conta - que não era bancária porque não estava num banco, mas sim no chão - para evitar os furtos, frutos das suas constantes escapadas da realidade deste mundo. Cada um destes, agora dois, mendigos permanecia no seu posto, e tinham-se respeito tal que o bicho não encarava Boné nos olhos quando se sabia observado, passando-se o mesmo na ordem inversa de ideias. E neste mutualismo surgido aparentemente por acaso, tudo se passava pacificamente, tão passivamente quanto antes, com apenas uma diferença de que Josué se aoercebeu a certa altura olhando o seu boné.
A sua conta em moedas crescia, amontoava, quase criava juros, ao ponto de até moedas mais cintilantes e valiosas se notarem no meio de um monte de outras mais modestas. O coração do sem-abrigo palpitou, pulsou forte algumas vezes. Já se ia esquecendo de comer há muitas horas, mas lembrava-se que padecia de séria fome. E ali lhe surgiu uma mina, um almoço como há muito não havia. Acorreu ao dinheiro, e de imediato o cão se ergueu num pulo, ficando no entanto espectante, olhando ora aqui ora ali, como que atento e de guarda. As pessoas que passavam pensavam que aquela pobre alma tinha finalmente arranjado, pelo menos, uma companhia, um cão. Boné ia pensando: "Este cão fez-se meu dono e mestre."
E assim parecia ser: o cão nada lhe pedia mas depressa o começou a ensinar. Refilava se alguém se aproximava de modo suspeito do boné, rosnando ameaçadoramente. Aparecia simpátivo ao resto das pessoas. Começou a ladrar, para grande espanto inicial de Boné, quando notava que já habia suficiente no boné para que se fosse comprar comido. Por vezes, desaparecia para aparecer daí a momentos com uma moeda que, com o ar mais natural deste mundo, depositava no boné, lambia o focinho duas ou três vezes e tornava a deitar-se. Mais que tudo, este cão que sabia contar e farejar dinheiro, deu umas novas pernas ao seu dono adoptado, ensinou o humano a erguer-se nelas, e este já passava mais tempo acordado e vertical, e já se afastava vários metros do boné por largos minutos, até dando-se ao luxo de comprar o pão em sítios diferentes de cada vez. O cão permanecia nessas alturas junto ao boné, mendigando aos humanos. E, de tudo o que caía no boné, recebia metade, em alimento.
quinta-feira, 18 de Outubro de 2007
Vida rasteira (parte I)
Defronte da igreja, na rua atarefada, morava Josué. Por muitos anos não fazia assento noutro lado que não aquele, o Josué, e a sua ligação ao resto do mundo era um boné que equilibrava no chão virado para cima, lugar para qualquer amostra de esmola que lhe quisessem facilitar. Por conseguinte, por lógica e por comodidade, Josué era chamado pelos que o estavam habituados a conhecer por ali de Josué, o do boné, ou mais usualmente apenas por Boné. Andrajoso, maltrapilho como os que nada têm nesta vida, o Boné fiava-se mais no alheamento deste mundo do que na sorte da esmola, e gostava de adormecer sonhando-se noutras cidades, que imaginava belas porque belos lhe soavam seus nomes, mesmo ciente de que essa sorna lhe valia na maioria das vezes o desaparecimento das moedas que tivesse à vista no seu boné companheiro, sempre moedas pouco cintilantes, o que era forma pouco cintilante de ganhar a vida mais rápido que a vida de uma gafulha se tornava em forma de perdê-la. O boné, esse, nunca o levaram. Sabiam talvez que mais oportunidades surgiriam brevemente de furto, e assim sendo não queriam dificultar a vida ao Boné; eram quase os seus melhores amigos, estes fiéis larápios, tendo em conta que de amigos pouco tinha nesta vida, quem sabe se nenhum mesmo.
Um dia houve em que, abrindo os olhos, Josué do boné avistou abeirando-se do seu ganha-pão um animalzinho muito pequeno, um jovem cão farejando o conteúdo do chapéu. Normalmente, e já que esta não era grande ameaça ao mealheiro do mendigo, teria ficado indiferente. Mas, movido por uma súbita curiosidade, foi ter com o bicho, sacudiu a barba farta com as costas das mãos, aguardou uns momentos olhando o bicho do alto e finalmente agarrou-o. Subiu uns degraus da igreja, e depositou-o junto à porta achando que alguém lhe iria achar piada e levar. Isto sabia ele do mundo, o pequeno cão, apesar de abandonado, era amoroso, o que a juntar ao pouco tamanho suscitava na alma humana comiseração imediata. Já ele, começando na barba, terminando nos pés pouco calçados, nada tinha de pequeno ou amoroso, e essa era quase sempre a diferença entre vinte cêntimos e nada.
Perdido nestas conjecturas de desiludido da vida, Boné perdeu o espetáculo de esforço aparatoso do cachorro que, o mais rápido que pôde, sôfrego tornou para junto do boné. Lá se deitou. Boné encolheu os ombros, coçou a nuca, e tomou também o seu posto, deitado de lado perto do boné, e da nova presença que rapidamente esqueceu que era estranha. Isto porque rapidamente adormeceu.
Um dia houve em que, abrindo os olhos, Josué do boné avistou abeirando-se do seu ganha-pão um animalzinho muito pequeno, um jovem cão farejando o conteúdo do chapéu. Normalmente, e já que esta não era grande ameaça ao mealheiro do mendigo, teria ficado indiferente. Mas, movido por uma súbita curiosidade, foi ter com o bicho, sacudiu a barba farta com as costas das mãos, aguardou uns momentos olhando o bicho do alto e finalmente agarrou-o. Subiu uns degraus da igreja, e depositou-o junto à porta achando que alguém lhe iria achar piada e levar. Isto sabia ele do mundo, o pequeno cão, apesar de abandonado, era amoroso, o que a juntar ao pouco tamanho suscitava na alma humana comiseração imediata. Já ele, começando na barba, terminando nos pés pouco calçados, nada tinha de pequeno ou amoroso, e essa era quase sempre a diferença entre vinte cêntimos e nada.
Perdido nestas conjecturas de desiludido da vida, Boné perdeu o espetáculo de esforço aparatoso do cachorro que, o mais rápido que pôde, sôfrego tornou para junto do boné. Lá se deitou. Boné encolheu os ombros, coçou a nuca, e tomou também o seu posto, deitado de lado perto do boné, e da nova presença que rapidamente esqueceu que era estranha. Isto porque rapidamente adormeceu.
quinta-feira, 11 de Outubro de 2007
Como é por vezes
Amamos todos a vida
Até quem com desalento a odeia
É capaz do maior vigor.
Abrindo ou fechando os olhos,
Seja cinzenta ou clara,
Todos nós amamos a cor.
Duas faces da mesma verdade,
Alternadamente, com ironia,
Apraz-nos o alívio, e a dor.
Adoramos falar do que amamos
Ainda que isso seja um pequeno verso,
Um nada, o frio, o feio, o calor.
Amamos as outras pessoas
Quando nos apetece.
É o amor.
Até quem com desalento a odeia
É capaz do maior vigor.
Abrindo ou fechando os olhos,
Seja cinzenta ou clara,
Todos nós amamos a cor.
Duas faces da mesma verdade,
Alternadamente, com ironia,
Apraz-nos o alívio, e a dor.
Adoramos falar do que amamos
Ainda que isso seja um pequeno verso,
Um nada, o frio, o feio, o calor.
Amamos as outras pessoas
Quando nos apetece.
É o amor.
segunda-feira, 3 de Setembro de 2007
Um começo!
Desta forma assinala-se um começo na vida artística profissional. Devagar mas sem medos apresento-vos um projecto que foi criado por três aventureiros inspirados no teatro e com vontade de trabalhar e de aperfeiçoar as suas técnicas artísticas, sempre...
Um espectáculo com base numa dramaturgia a partir de textos de Florbela Espanca que estreou em Peniche e que agora viaja até Torres Vedras, estreia no Bar do Gil dias 13,14 e 15 de Setembro pelas 22h.
Apareçam e divulguem!
Aqui vos deixo a página do nosso espectáculo para consulta: www.teatroemcena.no.sapo.pt
Um espectáculo com base numa dramaturgia a partir de textos de Florbela Espanca que estreou em Peniche e que agora viaja até Torres Vedras, estreia no Bar do Gil dias 13,14 e 15 de Setembro pelas 22h.
Apareçam e divulguem!
Aqui vos deixo a página do nosso espectáculo para consulta: www.teatroemcena.no.sapo.pt
sexta-feira, 6 de Julho de 2007
No 52... já ninguém mora! *
* texto inspirado e publicado, em resposta ao desafio do Finúrias, no Ministério da Soltura.Estando eu caminhando, na rua, em direcção a um encontro importante e embrenhado em pensamentos e ideias, oiço uma voz idosa chamar, Se o jovem não se importava de dar uma ajudinha, voz essa cuja origem demorei ainda um instante a descobrir.
Deparei-me com um senhor de óculos de um amarelo escuro, já quase plenamente calvo, com aspecto cansado, e estranhamente envergando uma abundância de agasalho para o tempo de praia que fazia. Apelidou-me de jovem pois já devia ter percorrido uns setenta anos, e indagou-me acerca da localização do Centro de Pesquisas Farmacêuticas e Químicas. Acrescentou, Sei que é por aqui mas um rapaz fez-me já andar às voltas com o que me indicou, disse-me que era para esse lado, e o malfadado homem apontou para o sítio de onde vim. Eu disse, É verdade, pode-se ir por lá, mas venha comigo que é mais perto por aqui, e vou lá passar. Ofereci-me também para levar o mais pesado dos sacos que carregava, ao que acedeu. Lá dentro iam batatas.
Já antevia um passeio silencioso dado o evidente carácter pacato do meu interlocutor, mas porém assim não foi. Antes contou-me que a sua demanda era quase sem esperança. Por morar num lugar junto de uma descuidada fossa séptica a céu aberto, a sua saúde ter-se-ia degradado. De médico em médico, hospital em hospital, e já neste centro de investigação de farmácia tinha buscado auxílio em vão. Queixava-se há anos de um frio imenso e petrificante dentro de si, É por isso que ando devagar. Explicou-me que ninguém lhe detectava o problema que, Pode ser a nível capilar, sim, mas de certeza que é na minha pele, pois se vivo naquelas condições sanitárias!. Isto dizia debalde aos doutores, que o rechaçaram sempre, sempre ignorado. Mesmo eu só lhe soube dizer, entre as suas frases, que o que ele pensava tinha lógica, que o seu mal era por demais estranho, e que fazia bem buscar apoio em sítios diferentes.
Condescendente das minhas réplicas inconsequentes, continuou o seu relato, explicou como tinha sido despedido de um emprego estável na junta de freguesia, onde não suportava estar no inverno ao ponto de congelar; como tinha acompanhado o frio cancro que lhe tomou a esposa, que viu friamente morrer, pleno de frio. De tudo isso sobrou o frio, confessou-me, e olhou absorto o caminho.
De súbito, levou as mãos a um saco e mostrou-me o seu conteúdo, visto que eu era um “jovem que parecia compreender”. Tinha uma série de objectos oriundos da fossa. Desabafou, Se pudesse até fazia com que analisassem as minhas roupas, a ver se não enctravam magotes de gases! E de novo se calou.
Como faltasse ainda um pouco de caminho, e presumia que o silêncio iria entristecer o meu companheiro aflito de memórias, perguntei onde ele morava, ao que me respondeu, Na Pontinha, essa bela terra, com desapontamento na voz. Admirei-me, e foi quase com um inapropriado entusiasmo que lhe revelei que já lá tinha morado uns anos, na avenida dos Bombeiros Voluntários. Esses são outros, reclamou, ligando para lá, eles analisam o perigo da fossa, mas calam-se quando pergunto porque não lhe arranjam solução. Se já lá morou talvez conheça então a tristeza do beco das Fontanelas... Pergunto se lá morava há muito. Fez um silêncio como quem chama a atenção ao que vai ser dito, e seco, de orgulho e impotência, exclamou, 40 anos.
Quase chegados ao seu destino, perguntei-lhe se alguém o aguardava no centro, ao que ele replicou que, Não, venho com Deus ou com o Diabo. Parados à entrada que lhe indiquei, esfregou a cara e, encarando-me, prosseguiu a reflexão, Se mesmo o amigo me ajudou a vir até aqui, e eu retribuiria se pudesse, porque é que não há uma única alma que olhe para o meu caso? E, depois de uma pausa breve: Porque é que nós não podemos viver em paz?
Desejando o melhor para o outro, despedimo-nos, balbuciei algo contra o egoismo humano, e de tão estupefacto só depois me lembrei da pessoa que me esperava, e só mais tarde ainda reparei que tinha inadvertidamente privado o homem do seu saco de batatas!
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No dia seguinte, procurei à hora do jantar a moradia do malogrado senhor, que tinha ficado agradecido apenas por lhe ter indicado o caminho e com ele ter conversado durante uns minutos. O que para mim tinham sido breves instantes, teriam talvez sido bem mais na sua idosa mente, bastante sensível a quem quer que lhe desse atenção, neste mundo. E tendo também isso em conta não poderia nunca deixar de lhe entregar as devidas e esquecidas batatas.
Descobri o beco que antes tinha enganosamente admitido conhecer, após reviver velhas sensações de quando era ali morador, inocente de todas as reviravoltas que a vida tem para toda a gente. O beco era consideravelmente grande, com prédios baixos, desiguais e afastados, notando-se um cheiro nauseabundo que não esperava encontrar, mas que seria de esperar se me recordasse apenas das palavras do velhote. O sítio estava deserto, mas ouviam-se algumas pancadas, lentas, arrastando-se tarde fora e secas. Reparei que provinham de um indivíduo de boné, tichârte e calças sujas que, paciente, pregava umas tabuinhas na porta de uma casa velha, caindo aos bocados. De repente, levantou um vento inesperadamente frio, não forte, mas penetrante e incomodativo. Aproximei-me e encarei o sujeito do martelo, a quem perguntei onde habitava o senhor, o qual tentei descrever da melhor forma que me era possível. Ele pareceu não reagir, não colaborar. Decidi-me a acrescentar, numa última tentativa, o que se revelou a característica decisiva, Um senhor que tinha uma estranha doença que o fazia ter frio a toda a hora, disse eu atabalhoado. A isto, ele olhou-me pela primeira vez e disse, Ah, procura o Baltasar, chamavam-lhe o Baltasar do gelo. Ele vive aqui, é engraçado. Ou pelo menos vivia, hoje de manhã finou-se. Houve um incêndio grave na cozinha que o levou. Agora aqui no 52... já ninguém mora.
As palavras ressoavam nos meus ouvidos quando me afastava, senti o peso das batatas e perguntei-me sobre a importância que afinal uns meros quilos de batatas podem ter neste mundo, se no tempo de os transportar ao outro lado da cidade, morre uma pessoa.
Tomou conta de mim um grande lamento, mas descansei quando imaginei o senhor Baltasar perante as fortes, laranjas, quentes labaredas, sorrir pela primeira vez desde que perdeu a mulher, sentir pela primeira vez a pele desde que perdeu a saúde. O senhor Baltasar enfrentando, entregando-se à chama, a única que nos últimos anos de vida o compreendeu e aqueceu.
Atirei-me num passo mais ritmado e segui o meu caminho.
quarta-feira, 30 de Maio de 2007
Cúmplice adeus
Escuta-se ruído, muito ruído. Pneus de camiões furiosos empurram a água da estrada, uma buzina de automóvel ralha, solitária, à distância. Asas de pássaros, um, dois, três pássaros batem de surpresa, fogem, estacam. Centenas de pernas fogem e estacam, fogem e estacam, não param; mil aspersores incidem zangados uns com os outros, o nevoeiro é barulho que se ouve com o nariz.
De súbito, tudo cessa, tudo se aquieta. O ouvido estranha, mas continua o caminho na calçada, o peito pesa. Um aperto tamanho no peito
-Respira
A pressa fugiu, o mundo perdeu a geografia, a geometria, é obsoleto cronometrar a vida. Não se ouve nada, e continua pela calçada caminhando em frente, não se distinguem os detalhes. Mas tudo está estranhamente tranquilo, tudo se pinta de sossego e uma alegria ténue. Tudo se suspende num momento de vácuo enquanto ele caminha.
Parece que o estou a ver a ir embora, leve, pela calçada.

